VIVENDO PELA GRAÇA

08/11/2010 10:16

 Efésios 2.1-10

 

                 Karl Barth, um dos maiores teólogos do século vinte, ao falar sobre o grande amor de Deus que nos escolheu e nos elegeu afirma que “graça é o benefício livre e paternal no qual Deus nos acolhe e trata como filhos seus dentro do tempo e para a eternidade”. Analisando a afirmação acima, e à luz das citações bíblicas, uma enorme sensação de alívio paira sobre todos nós.

 Em diversos momentos da vida cristã, a cultura religiosa e eclesiástica primou pela exigência de sacrifícios ou coisas parecidas para obtenção do perdão e restauração do ser humano. A necessidade de perdão faz parte da vida cristã e é indispensável à existência humana, porém, o grande drama de muitos cristãos está na terrível sensação de culpa, mesmo após a confissão de seus pecados. Há sempre uma insegurança quanto à validade e realidade do perdão. A doutrina da graça de Deus traz para o seu povo uma mensagem de paz e a certeza da restauração. A paz proporciona estabilidade física e emocional; a restauração devolve a alegria de viver com a convicção de não mais cometer os mesmos erros do passado. O texto de Efésios é um convite à compreensão da doutrina da graça de Deus. Somos convidados a entender que nos apresentamos diante de Deus como pessoas e não como coisas. Deus nos ama da forma que somos independentes das nossas fragilidades.

 1) GRAÇA COMO TRANSFORMAÇÃO DO SER HUMANO ( 1-3 ) - Observemos os primeiros versículos. Deus do nada nos dá a Sua graça e nos transforma em novas criaturas ( 2 Co 5.17 ). Somos homens e mulheres, remodelados, recriados segundo a vontade de Deus, podendo assim, praticar atos de amor que antes não praticávamos.  Ao estudarmos tão preciosa doutrina descobrimos que por Deus somos tratados como pessoas e não como objetos.  Fomos criados por Deus não para uma vida de pecado, mas sim para uma vida que glorifique e proclame a sua infinita misericórdia, pois Deus nos alcançou através de sua maravilhosa graça ( Rm 6 e outros inúmeros textos ). 

  Uma das formas de observar se vivemos pela graça está no fato de realizarmos uma profunda análise dos nossos próprios atos. Se os mesmos estiverem à moda do passado, com tristeza precisamos concluir que ainda não conhecemos o toque sereno e sublime da graça de Deus.  Quem continua agindo à moda do passado é porque ainda não permitiu que a graça de Deus e o Deus da graça atingissem a sua vida. Em meio ao pecado, Deus em Cristo nos ofereceu vida. Somente aqueles que se consideram pecadores têm acesso à GRAÇA DE DEUS. Quem não sofre com o peso do pecado e o reconhece, não consegue entender a grandeza desse amor e dele experimentá-lo.  Somos convidados a experimentar da graça que transforma – transforma nossas vidas, reconstrói nossos lares consumidos pelo inimigo, restaura relacionamentos e nos dá esperança de vida.

 2) GRAÇA COMO FILIAÇÃO ( 4-7 ) - Um outro aspecto indispensável refere-se à filiação. Sua graça nos transforma em filhos e filhas, levando-nos à condição de herdeiros e herdeiras das promessas, longe da idéia de que somos órfãos em um mundo sem Deus ( Jo 1.12,13 ). Por isso graça é dom – presente do Eterno a todos os que lhe obedecem e esse presente nada mais é que a própria pessoa de Cristo. Cristo é o presente de Deus à humanidade; é a própria graça encarnada e sacrificada para restauração de toda a humanidade. É Cristo mesmo dando-nos a vida e nos transformando em herdeiros do Reino, capacitando-nos para viver, agir e atuar a serviço de Deus. No capítulo 3.14-21 encontramos o belo ensino paulino que de somos convidados a conhecer melhor esse amor paternal demonstrado na ação de Cristo em nosso lugar.

 Ao enviar seu Filho ao mundo Deus desejou resgatar a paternidade entre os seus filhos. Israel era uma nação órfã, sem orientação paternal e distante de todo ensinamento divino. Deus se apresenta como o Pai Maior que busca seus filhos e filhas nos lugares mais terríveis da vida. Somente um grande amor paternal leva à doação do próprio Filho ( Jo 3.16 ). Deus nos ensina que quem ama se entrega, se sacrifica independente das conseqüências sofridas. Deus nos mostra que a alegria da madrugada da ressurreição é maior que a dor dos espinhos ou o peso da cruz – isso é amor paternal – isso é filiação. Deus se apresenta desejoso de cuidar dos seus filhos e filhas e curar suas feridas como Pai amoroso e sempre presente. Deus não é um Pai ausente, mas presente em todas as circunstâncias. Devido ao seu grande amor não somos mais órfãos, mas temos um Pai e chamar Deus de Pai é privilégio daqueles que o obedecem como Senhor.

 3) GRAÇA COMO DOM DE DEUS ( 8-10 ) - Cristo é a Graça ( dom/presente ) maior de Deus a todos nós.  Deus mesmo se presenteou a cada um de nós na pessoa de Cristo. Biblicamente não merecemos nada, pelo contrário somos constantes devedores, porém ele continua nos convidando à participação e envolvimento com seu Reino. Através das nossas forças nada conseguimos conquistar ou fazer. Nenhuma obra humana resultará em salvação a não ser pela graça. Tudo o que temos, somos ou fazemos não é mérito nosso, mas sim,  presente de Deus que nos considerou propícios em recebê-lo. Vivemos em um mundo religioso ansioso por dons. Há uma busca desesperada na conquista de dons, principalmente aqueles considerados “extraordinários”.  A doutrina da Graça nos convida a buscar o dom Maior que é o próprio Cristo. Ao conhecê-lo recuperamos forças para viver e refazemos nossos conceitos em relação à vida. Graça como dom de Deus na pessoa de Cristo nos faz ver a vida com os olhos da fé. Nossa preocupação volta-se à conquista de novos horizontes e nos dá a oportunidade de viver sob o signo do novo.  Esse dom transforma, renova, inspira, dá paz e esperança ao abatido. Buscar esse dom é buscar a própria vida e aprender a vivê-la sob a orientação do Espírito de Deus.

 Temos ouvido muitas mensagens que nos sufocam com o peso do pecado. Portanto, em meio às desgraças da vida, a doutrina da graça existe para dar alívio e liberdade, independente do nosso passado e das nossas atitudes, colocando-nos novamente em contato com o amor do Pai. Em Cristo, graciosamente somos livres para com ousadia vivermos a vida cristã. A liberdade recebida não nos permite fazer tudo o que achamos possível de forma irresponsável, contudo nos possibilita viver sem o sentimento de culpa que tanto mal faz à vida humana.  Independente do pecado, das tragédias, da distância que estamos de Deus – Deus mesmo continua dizendo – “pela graça sois salvos” – “Eu já fiz de tudo através do meu Filho, Cristo Jesus”. Todos têm direitos a viver pela graça, pois assim como Deus se doou por nós ( Cristo ),  pede que nos doemos a Ele incondicionalmente. Assim agindo podemos descobrir a ação de Deus em nossas vidas, tanto no tempo presente quanto na eternidade.

 

Rev. Silas de Oliveira