Superando toda Ansiedade

A primeira carta de Pedro é dirigida às diversas comunidades de cristãos, espalhadas por várias regiões do mundo antigo (1:1-2). Eram forasteiros, carentes de consolo devido à situação do momento. Na época em que a carta foi escrita, os leitores estavam entrando em um período de forte perseguição, onde, diante das calúnias e inseguranças, os sofrimentos eram inevitáveis. Em face da ordem do Império Romano em exigir que as pessoas afirmassem publicamente que César era o senhor, deparamo-nos com comunidades angustiadas, inseguras e ansiosas.  A palavra de Pedro, pedindo que os cristãos colocassem diante de Deus toda a ansiedade, surge como um bálsamo consolador, produzindo segurança e esperança em meio a tanta tristeza ( 1 Pedro 5.7 ).

 Interpretando ansiedade como preocupação excessiva, tensão, fadiga, temor, etc., veremos que a palavra do apóstolo às comunidades da diáspora continua sendo presente, atual e consoladora. Basta olharmos para a situação de nossas igrejas e famílias e perceberemos quão grande é a ansiedade presente. Precisamos reconhecer que nossas crises de ansiedade têm afetado diretamente nossos relacionamentos, descontrolando nossos sentimentos e emoções.

 Rollo May, um dos grandes psicanalistas do nosso tempo, afirma que a ansiedade é “um dos problemas mais urgentes dos nossos dias – “emoção oficial da nossa época” e que “pessoas com maior nível de inteligência e originalidade são mais inclinadas à ansiedade”. Entre as diversas causas da ansiedade, citamos abaixo algumas delas, que segundo Gary Collins tem contribuído para a destruição de muitos relacionamentos, que com certeza tem estado presente na vida de muitas pessoas, famílias e comunidades religiosas do nosso tempo.

 

1)      AMEAÇA – Diversos são os tipos de ameaças. Elas aparecem na forma física, psicológica (perda da liberdade), auto-estima, separação, etc. O índice de suicídio é algo assustador, onde a cifra maior está entre os países chamados protestantes. Vale a pena observar que no Brasil, assusta-nos o altíssimo índice ocorrido entre adolescentes, devido a outro problema gravíssimo que se chama depressão. À moda das comunidades da diáspora, nossas famílias e igrejas do século vinte e um também vivem em ansiedade, porque também se sentem ameaçadas. Somos ameaçados pelas falsas filosofias de vida, pelos falsos conceitos de amor,   de fé, esperança e salvação, porque muitas vezes não conseguimos trabalhar com questões fundamentais do dia a dia, seja no campo religioso ou secular. Quando não conseguimos colocar toda a nossa      ansiedade diante de Deus somos sérios candidatos a uma vida constantemente      ameaçada.

 

2)      CONFLITO – Diversos são os tipos de conflitos. Eles surgem através das pressões que a vida impõe ao ser humano. Quando surge a insegurança, a pessoa fica entre aquilo que chamamos de aproximação e fuga, ou seja, ao mesmo tempo em  que desejamos enfrentar o problema, fugimos dele como sendo algo impossível de ser resolvido. Assim como nas comunidades primitivas, nossas famílias e igrejas vivem em ansiedade porque não conseguem resolver os seus conflitos. Esses conflitos surgem de diversas maneiras, como por exemplo: relacionamentos entre pais e filhos, casais, irmãos e irmãs na fé; de liderança, onde muitas igrejas têm sofrido devido à disputa de cargo e interesses pessoais; de poder, onde somos convidados a concordar com Rubens Alves quando afirma que nosso mundo está voltado mais para o amor ao poder do que ao poder do amor. Infelizmente, com o surgimento de conflitos assim, a caminhada saudável da Igreja de Jesus Cristo, bem como das famílias que a compõe tem sido extremamente prejudicada. Quando não conseguimos colocar diante de Deus toda a nossa ansiedade somos sérios candidatos a uma vida em constante conflito.

 

3)      MEDO – Diversos são os tipos de medo. Há o medo do fracasso, do futuro, do sucesso, da rejeição, etc. Jung chega a afirmar que “o nosso mundo vive sob ondas de inquietação e medo”. Precisamos reconhecer que somos uma geração que aprendeu a ter medo inclusive  de andar na rua. Nossas famílias e igrejas vivem em ansiedade constante porque não conseguem resolver os seus medos, sejam eles internos ou externos. Vivemos também o medo do fracasso, quanto à realização dos nossos projetos. Tememos o futuro, onde não conseguimos crer no amanhã,  como dádiva de Deus aos seus filhos -  consequentemente temos medo da vida. Vivemos o medo causado pelos impérios modernos que muitas vezes nos tiram a coragem de professar diante das arenas do mundo que Cristo é o Senhor. Quando não conseguimos colocar diante de Deus toda a nossa ansiedade somos sérios candidatos a uma vida dominada pelo medo.

 

4)      NECESSIDADES INSATISFEITAS – Diversos são os tipos de necessidades insatisfeitas. Elas surgem como um fator de sobrevivência espiritual, pela falta de crescimento balanceado, pela falta de compreensão correta do Evangelho e até mesmo pela busca por aquilo que está além do humano. Neste novo século e milênio é impressionante a procura desesperada de pessoas em busca do chamado “mundo espiritual”. Famílias têm sido destruídas e igrejas divididas devido a comportamentos histéricos de certos grupos religiosos, que buscam desesperadamente satisfazer certas necessidades espirituais, que em muitas vezes com um bom tratamento clínico estariam resolvidas. Igrejas e famílias nessas condições só podem viver mesmo em constante ansiedade.

 

5)      DIFERENÇAS INDIVIDUAIS – Esse é o tipo de ansiedade sem causa. São as chamadas fobias. Nunca temos uma resposta definida sobre certas perguntas da vida, mas muitas vezes procuramos respostas a todo custo. Não sabemos responder nossos “por quês”, porque não sabemos direito quais são nossas inquietações. Esse comportamento é típico de uma sociedade chamada pós-moderna, que vive em meio às máquinas e evoluções tecnológicas, mas ao mesmo tempo age como se fosse analfabeta digital. Nossas famílias e igrejas vivem em ansiedade porque não conseguem resolver as suas diferenças. Diferenças de raça, gênero, pensamento, personalidade, etc., têm impedido que,  como família cristã,  possamos dar verdadeira razão da nossa fé. Quando não conseguimos unidade em meio à pluralidade só podemos mesmo viver constantemente ansiosos.

  

      CONCLUINDO

 Mais que nunca a carta de Pedro às comunidades antigas continua sendo atual e necessária. Quando desafia as pessoas a lançarem diante de Deus toda ansiedade, o apóstolo está pedindo que continuem firmes na fé. Apesar das inúmeras dificuldades, fossem elas materiais, espirituais, políticas, econômicas ou sociais, deveriam continuar crendo no Deus da providência, certo de que o mesmo não os abandonaria. Para nós não podemos perder de vista que o nosso mundo é um mundo ansioso e que constantemente nos sentimos ameaçados, em conflitos, com medo, insatisfeitos e que as nossas diferenças nos impedem de professar o senhorio de Cristo. Vale a pena continuar crendo que o mesmo Deus do passado continua atuando no presente, pronto a nos abençoar com toda a sorte de bênçãos através de Cristo Jesus. Que nossas famílias e igrejas aprendam, dia após dia a lançar nas mãos de Deus toda ansiedade.

 

 Rev. Silas de Oliveira             

 

  

Sugestões Bibliográficas:

 

 COLLINS, Gary - Aconselhamento Cristão” - Ed. Vida Nova, São Paulo, 1992

 HORST, E. Richter - A Família Como Paciente - Martins Fontes, São Paulo, 1996

 LÉON, Jorge A. - Introdução à Psicologia Pastoral - Sinodal, São Leopoldo, 1996

 MALDONADO, Jorge E. ( Org.) - Fundamentos Bíblicos-Teológicos do Casamento e da Família - Ultimato , Viçosa, 1996.

 ROLLO, May - A Arte do Aconselhamento Psicológico - Vozes, 5a. ed. Petrópolis, 1984